François Mairesse defende resistência à visão puramente econômica dos museus

Mairesse ministrou conferência sobre a Recomendação Unesco no 7º Fórum Nacional de Museus, no Brasil

A tensão entre as visões econômica e social dos museus foi o ponto condutor da conferência do professor François Mairesse no 7º Fórum Nacional de Museus, na cidade de Porto Alegre, Brasil, sobre a Recomendação Unesco 2015 para proteção e promoção dos museus e coleções. Autor do estudo preparatório para a formulação do documento, Mairesse defendeu a resistência à tendência de alguns governantes de tratar os museus como instrumentos de crescimento econômico de cidades e países.

“Essa é uma forma perigosa de conceber os museus. Não é suficiente. Se perdermos a ideia dos museus como lugares de educação e preservação, podemos perder toda a sua funcionalidade”, alertou Mairesse, que é presidente do Comitê Internacional para a Museologia do Conselho Internacional de Museus (Icofom/Icom).

Para ele, cada instituição deve estar adaptada a seu contexto. “Uma só visão museológica seria um pesadelo. Temos que respeitar a diversidade”, reforçou. Para isso, a Recomendação Unesco pode servir de ferramenta para os gestores culturais, ao expor as múltiplas funções dos museus.

Mairesse destacou a papel do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e do Programa Ibermuseus na defesa da visão social dos museus em discussões internacionais sobre o tema. “Sem esses atores, não haveria Recomendação.”

A Recomendação Unesco e a Declaração de Salvador

Conversamos com François Mairesse antes da conferência, e ele traçou um paralelo entre a Recomendação da Unesco e a Declaração da Cidade de Salvador, de 2007, base da cooperação dos Estados Ibero-americanos em políticas públicas no âmbito dos museus. “Os dois documentos vão na mesma direção, de reforçar o papel social e político dos museus. A Declaração de Salvador significou a criação de uma rede muito importante. Uma união significativa no sentido de influenciar a visão e o desenvolvimento dos museus neste século”.

“Isso é, de certa forma, também o objetivo da Recomendação”, continuou Mairesse. “Essas vozes são importantes para mostrar que não há apenas um modelo, o modelo anglo-saxão de museus”.

Ele recordou que tais documentos seguem o legado da Declaração de Santiago do Chile, de 1972, e disse que precisam ser destacados em um contexto em que é cada vez mais forte o modo como conceber os museus como uma indústria, com relação próxima ao marketing e ao turismo. “É fundamental manter em evidência também a visão social.”

Fotos: Ascom/Ibram